PROFISSIONAIS INSCRITOS ATIVOS
     

ESTABELECIMENTOS REGISTRADOS

Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 129 - FEV - MAR - ABR/2017

FARMÁCIA

 

A reviravolta da farmácia

De emprego mais acessível a uma escolha para mudar a vida dos pacientes

  

rf129 farmacia01Há alguns anos, se perguntassem à maioria dos farmacêuticos em qual área eles sonhavam em trabalhar, a resposta raramente seria farmácia. No entanto, acabava sendo o destino de muitos profissionais, em especial os recém-formados, pela grande oferta de vagas. Hoje, os números da Bolsa de Empregos do CRF-SP comprovam essa demanda. Em 2015 e 2016 foram oferecidas 6.862 vagas em farmácias e drogarias, contra 608 em indústrias, hospitais e outras áreas. 

O que antes era apenas um caminho mais acessível, hoje, diante de uma série de transformações pelas quais a profissão tem passado, especialmente com a Lei 13.021/14, e as Resoluções 585 e 586/13 do CFF, além da crescente mudança de postura do farmacêutico, a farmácia tem sido uma escolha de profissionais que perceberam o quanto um trabalho comprometido, com ética e conhecimento pode mudar a vida dos pacientes. 

rf129 farmacia02Dra. Gladys Marques, doutora em Atenção Farmacêutica e Farmacoterapia pela Univ. de Sevilha (ESP)Dra. Gladys Marques, doutora em Atenção Farmacêutica e Farmacoterapia pela Univ. de Sevilha (ESP) é coach em saúde e tem a missão de ajudar a melhorar a vida profissional dos farmacêuticos por meio da implantação de consultórios farmacêuticos, o que envolve conhecimentos especializados em gerenciamento e otimização da Farmacoterapia, e um método consistente para realizar a prescrição farmacêutica com segurança. 

Ela revela que ter paixão por cuidar de pessoas, ser estudioso e ter espírito empreendedor são competências essenciais a quem quer obter sucesso na farmácia. “Não cuidamos de quaisquer pessoas, cuidamos de pessoas que possuem necessidades específicas relacionadas com seus medicamentos, sua saúde e, porque não, seu bem-estar e beleza estética”.

Dra. Gladys ressalta que o farmacêutico precisa ser “empreendedor”, no entanto faz questão de destacar que empreendedor não é ser um simples comerciante. Afinal, ter um espírito empreendedor faz com que ele enxergue a farmácia ou drogaria como um negócio rentável, mas que ao mesmo tempo gere valor social e de saúde para população. “Com esta visão, o farmacêutico pode propor ações voltadas a melhorar a qualidade de vida dos clientes que procuram a farmácia, oferecendo uma dispensação qualificada e serviços clínicos que só ele como farmacêutico tem conhecimentos e pode entregar à população por um preço acessível gerando renda para si e também para o estabelecimento”.

Eles mostraram que é possível

Farmacêuticos em diversas regiões do país mostram dia a dia o quanto a farmácia pode ser uma escolha não apenas que faz a diferença na vida do paciente, mas que traz realização pessoal, profissional e cumpre seu papel social. É o caso do Dr. André Suaiden, que faz questão de enfatizar que foi escolhido pela farmácia comunitária. Trabalhou como gestor da qualidade em uma indústria farmacêutica, mas sentia que não estava feliz. “Adorava quando meus colegas me perguntavam para que servia tal medicamento e como tomar”. Saiu de São José do Rio Preto e passou a trabalhar em uma farmácia de bairro na capital para poder pagar o mestrado em Farmacologia. Foi lá que se apaixonou pela atenção farmacêutica e não parou mais de estudar. 

Hoje, põe em prática com seguimento farmacoterapêutico, revisão da farmacoterapia, manejo de transtornos menores, dispensação ativa, prescrição farmacêutica e serviços como aferição de pressão arterial, verificação de glicemia capilar, verificação de temperatura corporal e aplicação de injetáveis. Também presta serviços domiciliares (todos cobrados), está implantando nebulização e soroterapia, além de realizar campanhas de saúde no bairro, nas escolas e igreja. “ Estamos focados no paciente e não no produto”, diz Dr. André. 

A rotina de segunda a sábado, das 7h às 18h, há 25 anos na sua farmácia, fez da Dra. Geane Núcia referência na região e ainda deu ao estabelecimento, localizado em João Pessoa (PB), a fama de “100% de presença do farmacêutico” na época em que assistência farmacêutica integral, apesar de estabelecida por lei, não era realidade no país. 

Única no bairro a ter autorização para prestar serviços farmacêuticos, a farmácia se destaca por não medir esforços para atender às necessidades dos pacientes. “Quando alguém faz um tratamento e precisa fazer uso de injetáveis, na farmácia ele encontra o medicamento e o serviço. Sou conhecida por não deixar faltar o medicamento, quando isso ocorre, imediatamente providencio e entrego em casa, sem cobrar”. 

Uma farmacêutica multitarefas, ela se divide entre prestação de serviços, acompanhamento de pacientes e a rotina burocrática como contato com fornecedores, envio ao SNGPC, entrada em notas fiscais, tudo sem descuidar da parte clínica. “A farmácia é uma paixão que me motiva, me faz me sentir viva, poder ajudar, aliviar a dor, dar um sentido, uma palavra amiga, ser útil é ser feliz”. Esse destaque também rendeu a ela o título de cidadã pessoense conferido pela Câmara Municipal de João Pessoa e a Comenda do Mérito Farmacêutico, do Conselho Federal de Farmácia. 

rf129 farmacia03Dra. Geane Núcia da Silva Alves (João Pessoa, PB)A clínica farmacêutica é um sonho que Dra. Geane busca concretizar, já que  após 25 anos de formada, voltou a estudar. “Sou feliz por ser farmacêutica e tudo que tenho na vida é proporcionado pela minha decisão de ser farmacêutica. Se fosse para começar tudo de novo, começaria, pois não me arrependo”. Todo esse amor passou aos dois filhos, que também cursam Farmácia na Universidade Federal da Paraíba. 

Do Rio Grande do Sul vem a experiência de sucesso do Dr. Fernando Kreutz, que atua na Farmácia Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com média de 150 pacientes por dia, o atendimento farmacêutico é realizado sentado em guichês de dispensação, em que o paciente pode ser devidamente acolhido. Além da orientação quanto ao uso racional dos medicamentos, a equipe elaborou calendários para ajudar na adesão ao tratamento, além de promover regularmente ações de educação em saúde com a participação de farmacêuticos e profissionais de saúde. 

Dr. Fernando destaca que cada farmacêutico, em seu local de trabalho, deverá identificar as potencialidades e os desafios para implantação de serviços clínicos, e agir de forma criativa para torná-la viável.  “Não acredito em modelos pré-estabelecidos, acho que qualquer modelo deve ser adaptado à realidade e às necessidades do local. É preciso ter coragem para começar e não aguardar um ambiente perfeito para dar os passos iniciais. O primordial é fazer-se presente, proativo e registrar de alguma forma as intervenções realizadas. Isso permitirá profissionalizar o serviço, avaliar a efetividade das intervenções realizadas e até mesmo identificar os problemas mais frequentes que mereceriam ações de educação em saúde”. 

Por Thais Noronha 

 

Cada farmacêutico inovador de sucesso iniciou sua mudança na prática com um único paciente. E todos os inovadores de sucesso irão dizer a mesma coisa: não é o dinheiro que agora os mantém fazendo, é a própria sensação de que o que estão fazendo é valioso e tem sentido para os pacientes que estão servindo.

Bruce A. BERGER, Habilidade de comunicação para farmacêuticos: construindo relacionamentos, otimizando o cuidado aos pacientes (2009)

 

EU FIZ A DIFERENÇA NA VIDA DO PACIENTE 

 

Carta de agradecimento

rf129 farmacia04Dr. André Schmidt Suaiden (São Paulo, SP)

“Uma paciente de 86 anos me procurou, pois estava se sentindo muito cansada e com tonturas. Relatou três quedas e marquei para trazer os medicamentos que tomava e os exames. Após anamnese farmacêutica, verifiquei que a paciente foi diagnosticada com hipertensão, dislipidemia, depressão e diabetes. A paciente utilizava mais de dez medicamentos e, ao verificar os parâmetros fisiológicos, constatei a pressão arterial e glicemia baixa. Eu a acompanhei por dois meses até o retorno ao médico, fiz score de depressão, score de Geriatria, medidas antropométricas, seguimento farmacoterapêutico, coloquei os medicamentos em ordem e com tabela com cores para ela tomar, expliquei sobre seu problema de saúde, relatei por escrito minha conduta ao médico e fiz um relatório de acompanhamento com algumas sugestões de mudanças de medicação. Após três meses e após consulta, o médico acatou a retirada de três dos quatro anti-hipertensivos, suspendeu o hipoglicemiante, diminuiu a dosagem do antidepressivo, enviou uma carta de agradecimento e perguntou se poderia mandar pacientes com este perfil para eu avaliar”. 

Dr. André Schmidt Suaiden (São Paulo, SP)

 

rf129 farmacia05Dr. Fernando Kreutz (Porto Alegre, RS)Intervenção determinante

“Um paciente relatou quadro sugestivo de hipoglicemia noturna (pele fria, suor, tremores e dores de cabeça ao acordar). Considerando que aplicava sua dose noturna de insulina NPH muito cedo (19h), sugerimos que inicialmente medisse sua glicemia durante a madrugada (o que confirmou a hipoglicemia noturna) e passasse a administrar a dose noturna da NPH mais tarde (22h), realizando um pequeno lanche antes de dormir. Aguardamos o retorno do paciente com seus registros de glicemia para avaliar a efetividade da intervenção. Outra paciente atendida por nossa equipe queixou-se de fortes dores musculares desde o início do tratamento com anlodipina. Ela vinha utilizando sinvastatina em dose de 40mg. A interação e a queixa foram comunicadas ao médico, que imediatamente substituiu a sinvastatina por rosuvastatina (sem interação com anlodipina), o que resultou no término das queixas de dores musculares da paciente.” 

Dr. Fernando Kreutz (Porto Alegre, RS)

 

 

     

     

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