Revista do Farmacêutico 112 - Farmácia Clínica

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PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 112 - JUL-AGO  / 2013

Revista 112 setinha Farmácia Clínica


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Foto: Latinstock

Alta prevalência de interações medicamentosas graves em ambiente ambulatorial e hospitalar poderia ser evitada por meio da efetiva implementação da Farmácia Clínica no Brasil

A administração concomitante de diversos fármacos (polifarmácia) é uma condição a que estão expostos diversos pacientes em atendimento ambulatorial e hospitalar, especialmente os idosos que, em função da complexidade clínica e do considerável número de intervenções realizadas por diferentes profissionais de saúde, estão permanentemente sob o risco de sofrer interações medicamentosas graves. No Brasil, vários estudos apontaram ser alta a prevalência dessas interações, sendo que muitas poderiam ser monitoradas meio de um serviço efetivo de farmácia clínica, seja no serviço público ou privado.

Um dos estudos que atestam essa elevada prevalência foi realizado em Ribeirão Preto, no interior do Estado, a partir da análise da farmacoterapia de mil pacientes idosos. O trabalho, intitulado “Estudo de utilização de medicamentos em idosos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS)” e tema de mestrado do farmacêutico dr. André Baldoni (Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto/USP), encontrou nesta amostragem 243 interações medicamentosas, das quais 25 eram potencialmente perigosas. 

Dados como esses evidenciam que a avaliação das potenciais interferências e interações provocadas pelo uso de diversos medicamentos deve ser uma das atividades de rotina nos serviços de farmácia clínica, visto que esta prática pode evitar consequências negativas que causam impactos clínicos, econômicos e humanísticos para os pacientes e para o sistema de saúde como um todo, na avaliação do dr. André Baldoni.

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Um dos problemas é que, atualmente, os serviços de farmácia clínica nos hospitais brasileiros são incipientes e pontuais, sendo realizados e efetivamente implementados em poucos locais, ressalta o dr. Baldoni. “Além do benefício para a segurança do paciente, este trabalho do farmacêutico é uma forma de o profissional se inserir e integrar à equipe de saúde, de forma a resgatar o perfil clínico e assistencialista que almejamos na atualidade”.

Para ele, os farmacêuticos ainda estão muito atrelados aos serviços de gestão farmacêutica e se dedicam pouco à formação clínica, e isso pode ser um dos fatores que dificultam a implementação de serviços clínicos que podem evitar as consequências das interações medicamentosas. “Precisamos atuar, também, na gestão clínica do medicamento, e o momento atual da profissão farmacêutica favorece esta atuação. Por isso, precisamos aproveitar os respaldos legais e técnicos para avançarmos nesta área.”

Avaliação criteriosa

Além da questão quantitativa sobre as interações medicamentosas, o farmacêutico precisa selecionar as potenciais interações que apresentam relevância e impacto clínico sobre a segurança do paciente, explica o dr. André Baldoni. “É preciso considerar que existem interações descritas na literatura que são desejáveis na prática clínica, há interações sinérgicas que auxiliam no controle dos parâmetros clínicos e que, muitas vezes, são conhecidas e desejadas pelos profissionais prescritores.” Sendo assim, o farmacêutico precisa discernir este tipo de interação antes da adoção de intervenções junto ao paciente e/ou junto ao profissional prescritor.

A opinião é compartilhada pela dra. Vanessa Andrade, membro da Comissão Assessora de Farmácia Clínica. Segundo ela: “Não adianta somente jogar os medicamentos em uma base de dados eletrônica que dá o resultado das interações por classificação de gravidade. É preciso levar sempre em consideração o quadro clínico do paciente e suas comorbidades.”

 Um dos exemplos citados por ela é de medicamentos que interagem e fazem com que o nível de potássio do paciente fique mais alto ou mais baixo, e isso pode aparecer como sendo uma interação leve, porém o paciente pode já estar em depleção de potássio. Neste caso, essa interação passa a ser importante para este paciente.

Estudo transversal (Guidoni, Camilo Molino. Estudo de utilização da varfarina em pacientes hospitalizados: análise do risco de interações medicamentosas e reações adversas. Ribeirão Preto, 2012) realizado também pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto/USP em um hospital de grande porte do município revelou que 14,1% dos pacientes em uso de varfarina receberam prescrição de vitamina K para reverter uma possível ocorrência de reação adversa relacionada a este medicamento.

“É preciso cruzar os medicamentos, analisar todas as interações, desde as mais graves até as mais leves, e avaliar a necessidade ou não de intervenção de forma criteriosa e, no caso de realmente ser uma interação contraindicada, quando o risco é maior que qualquer benefício para o paciente, apresentar uma sugestão de alternativa de tratamento”, finaliza a dra. Vanessa.

 

Dica do congresso:

O tema “Interação e interferências de medicamentos relevantes na prática da Farmácia Clínica” será abordado no XVII Congresso Paulista de Farmacêuticos, de 5 a 8 de outubro. Programação:
www.crfsp.org.br/congresso

 

Foto: Wavebreak Media / Latinstock

Mais informações sobre Farmácia Clínica na página da comissão

Renata Gonçalez