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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 121 - ABR-MAI / 2015 

 

Palavra do Ministrante - FITOTERÁPICOS

Pesquisa e desenvolvimento de fitoterápicos no Brasil

 

 

O Brasil dispõe de uma biodiversidade impressionante, que se expressa em cerca de 55.000 espécies vegetais e outras dezenas de milhares de animais e microrganismos. Teoricamente, esse contingente de espécies deveria traduzir-se em um igualmente expressivo número de produtos farmacêuticos à base das espécies vegetais, o que não tem ocorrido.
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O mercado mundial de fitoterápicos mostrou consumo, em 2011, de cerca de US$ 27 bilhões, um valor que representa menos de 4% do consumo global, incluindo sintéticos. Desse valor, coube ao Brasil pouco mais de US$ 700 milhões, representando cerca de 2,5% do consumo fitoterápico mundial. Desses 700 milhões de dólares, pouco mais de 5% são referentes ao consumo de produtos fitoterápicos genuinamente nacionais. Tais produtos tiveram, como iniciativa pioneira, as pesquisas com a hortelã-miúda (Mentha crispa), patrocinadas pelo laboratório Hebron, que geraram o produto Giamebil; esse mesmo laboratório desenvolveu o produto Kronel (gel e sabonete líquido) à base das cascas da aroeira da praia (Schinus terebinthifolius); posteriormente, usando a mesma matéria-prima, desenvolveu também o produto Kios, clinicamente estudado frente ao omeprazol.

Na sequência, foram desenvolvidos outros produtos com espécies nativas, seja por iniciativa pontual de alguns laboratórios (Immunomax, gel de unha de gato Uncaria tomentosa para herpes labial; Acheflan, pomada anti-inflamatória das folhas da erva-baleeira Cordia verbenacea), ou pelo acúmulo de pesquisas realizadas por diversos pesquisadores (folhas da espinheira-santa Maytenus ilicifolia, do guaco Mikania glomerata/laevigata ou das sementes do guaraná Paulinia cupana).
Minha relação com esse tema decorreu da tese de doutoramento sobre o ginseng brasileiro Pfaffia glomerata, com estudos de coleta, identificação, controle de qualidade, pré-clínicos de segurança e eficácia e um estudo clínico fase II em voluntários sadios. Os resultados positivos validaram sua aplicabilidade industrial como um tônico de memória para idosos sadios e permitiram a comercialização do produto Ginseng Brasileiro pelo Laboratório Herbarium.
A partir disso, ocorreu a aproximação com a empresa Apsen Farmacêutica, onde foi possível desenvolver cinco produtos fitoterápicos que compuseram a linha Apsen Fitomedicina, que são:

- Aglicon-soy®: cápsulas de uma isoflavona aglicona de soja (Glycine max) com indicações como fitohormônio, em parceria com a Unicamp e a Steviafarma Industrial;

- Védica®: comprimidos de extrato de incenso (Boswellia serrata) com indicações em quadros de colite ulcerativa e doença de Crohn, produzido com matéria-prima importada e montado exclusivamente com base em literatura internacional;

- Arpadol®: comprimidos de extrato de garra do diabo (Harpagophytum procumbens) com indicações em quadros inflamatórios como lombalgias e osteoartrite, também com base internacional;

- Mentaliv®: cápsulas gelatinosas moles com óleo essencial de hortelã-pimenta (Mentha piperita) indicado como antiespasmódico na síndrome do intestino irritável, também produzido com matéria-prima importada e literatura internacional;

- Fitoscar®: pomada com extrato hidroalcoólico de barbatimão (Stryphnodendron adstringens) recomendado como cicatrizante para úlceras de decúbito, baseado principalmente em estudos pré-clínicos e clínicos realizados pela Universidade de Ribeirão Preto.

Em todos esses desenvolvimentos, foi possível vivenciar os problemas que dificultam novos lançamentos, desde a legislação de acesso ao meio ambiente quanto à falta de matérias-primas, burocracia e morosidade nas importações, dentre inúmeros outros aspectos.
De todo modo, foi possível realizá-los e concretizar uma linha fitoterápica numa indústria nacional de médio porte. Para tanto, porém, são necessários uma equipe tecnicamente competente, os recursos óbvios para as etapas do desenvolvimento, bem como um segmento empresarial que entenda e aceite os altos riscos da complexidade da cadeira e os aspectos de independência tecnológica envolvidos. Sem isso, tendemos à perpetuação de nossa clássica dependência externa que fragiliza cada vez mais o setor farmacêutico brasileiro e a saúde dos pacientes que dependem de medicamentos.

 

 

 

luis marquesDR. LUIS CARLOS MARQUES é especialista em Fitoterapia, com mestrado em botânica (UFP) e doutorado em Psicobiologia (UNIFESP).

O dr. Luis irá participar do simpósio Inovações na Pesquisa e Desenvolvimento de Produtos Naturais e Fitoterápicos no XVIII Congresso Farmacêutico de São Paulo.

 

 

 

   

 

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