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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 115 - JAN-FEV-MAR / 2014

 

Mais farmacêuticos, mais saúde

Conheça a história de profissionais cuja atuação mudou a qualidade de vida e a saúde das pessoas para melhor

No ano passado, o país se viu envolvido pela polêmica dos profissionais cubanos trazidos ao Brasil pelo programa Mais Médicos, do Ministério da Saúde. A população de regiões distantes do país supostamente sofre com a ausência dos doutores, mesmo que, na maioria dos casos, saiam da consulta com receitas de medicamentos isentos de prescrição.

Distantes do calor do debate político, profissionais de saúde de diversas formações sabem que não faltam apenas médicos no sistema brasileiro, mas também enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e, claro, farmacêuticos.

A Revista do Farmacêutico aproveitou o mote da campanha publicitária “Sua saúde precisa do farmacêutico”, promovida pelo CRF-SP em janeiro, por ocasião das comemorações do Dia do Farmacêutico (20) e foi atrás de histórias nas quais esse profissional fez toda a diferença na saúde das pessoas. Confira abaixo.

Doutor diabetes

capa vanilton-foto-arq-pessoalDr. José Vanilton de Almeida, especialista em diabetes, atende há mais de 30 anos em Sorocaba“Não precisa me encaminhar para médico. Você resolve tudo.” A frase ainda surpreende o dr. José Vanilton de Almeida. Especialista em diabetes que dá orientação farmacêutica há 30 anos em uma farmácia de Sorocaba (SP), dr. Vanilton atendeu centenas de pacientes com diabetes tipo 1 e 2. Com o tempo, ganhou a confiança dos sorocabanos de tal forma que, quando ele recomenda procurar um médico, ouve respostas desse tipo.

“Quando faço esse trabalho, coloco o paciente em primeiro lugar. O farmacêutico conquista a confiança com o tratamento centrado nele. Damos empoderamento a ele, que decide o que fazer. Explico ao paciente como é e digo como o medicamento age”, diz.

O resultado da assistência não ocorre de uma hora para outra. Inicialmente, o paciente finge não acreditar que é com ele, não aceita as informações. Ao ser diagnosticado com diabetes, é comum o doente ter dificuldades de aceitá-la. Com o traquejo dos anos de profissão, dr. Vanilton explica sobre as restrições, as recomendações e todos os procedimentos para amenizar um pouco a dor do paciente que terá de conviver com a doença para o resto da vida.

Atenção na artrite

capa claudia-foto-div Dra. Cláudia Fontes coordena uma pesquisa com pacientes portadores de artrite reumatoide: “Tem paciente que chegou em cadeira de rodas, e hoje consegue andar”Ao receber o diagnóstico de artrite reumatoide, uma doença autoimune crônica que provoca uma série de limitações físicas que afetam drasticamente a qualidade de vida das pessoas, é comum o paciente se sentir desmotivado a seguir o tratamento e as recomendações médicas. Afinal, não há cura para a doença. No entanto, o trabalho desenvolvido pela dra. Cláudia Fernandes Fortes tem feito a diferença para um grupo de pessoas com esse mal, que participam de um estudo clínico no Centro Paulista de Investigação Científica (Cepic), onde ela é farmacêutica responsável por uma pesquisa em reumatologia.

O diferencial do trabalho está na atenção farmacêutica realizada junto a esses pacientes, quase todos idosos que chegaram ao centro debilitados, muitos com alto grau de comprometimento da doença. Após serem recrutados para o estudo, eles receberam orientação da farmacêutica que os acompanhou passo a passo quanto ao uso dos medicamentos ministrados. O resultado é que muitos responderam bem ao tratamento.

“Tem paciente que chegou em cadeira de rodas e hoje consegue andar”, relata a dra. Cláudia. “Não basta dispensar os medicamentos, apenas. Explicamos que o tratamento é uma tentativa que está sob estudo e que é importante seguir à risca as recomendações. Eles acreditam em nossa palavra e se comprometem a usar o medicamento corretamente. Cada vez que voltam ao centro de pesquisas, pontuamos os erros e os acertos. Os pacientes recebem nova orientação farmacêutica e um novo compromisso é firmado entre o paciente e o profissional”.

Clínica de primeiro mundo

capa marianasolange-foto-monica-neriDra. Mariana Garcia e dra. Solange Brícola realizam tratamento humanizado aos pacientes do HCO paciente vai ao hospital, recebe atendimento médico e medicamentos, realiza exames de ponta, passa por psicólogo, nutricionista, assistente social e não vê melhora em seu quadro. Como uma peça essencial nesse mosaico, o problema pode estar na adesão ao tratamento.

Para isso, há 20 anos no serviço, a dra. Solange Brícola implantou a Farmácia Clínica do Serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, referência não só no Brasil, mas no mundo.

“Esse é o grande objetivo: fazer farmácia clínica do jeito que se faz aqui. Acompanhamos o paciente junto com o médico e com os outros profissionais e recebemos encaminhamento de farmácia clínica, como interconsulta”, conta.

Os diagnósticos são vários: paciente que não entende o que está ingerindo, que administra menos ou mais medicamentos do que o prescrito, que perde o horário do fármaco, que se utiliza de polifarmácia, ou seja, ingere mais de cinco medicamentos por dia, que tem problema para ler ou é deficiente visual, que não sabe como fazer uso dos aparelhos inaladores ou injetáveis, ou que simplesmente descontinua o tratamento devido aos efeitos colaterais.

Nesse sentido, o trabalho da dra. Solange e da farmacêutica dra. Mariana Dionísia Garcia, que completa a equipe do consultório, é focado na educação do paciente. São 40 consultas de farmácia clínica por semana com duração mínima de 40 minutos. Todas encaminhadas por médicos e marcadas com antecedência.

“Nós utilizamos vídeos, potinhos com desenhos e horários em que o medicamento deve ser administrado, tabelas, diversas ferramentas para que o paciente saia daqui e realize corretamente o tratamento”, conta dra. Mariana.

Quanto aos métodos, J.M.A., de 79 anos, que preferiu não se identificar, paciente há nove meses das dras. Solange e Mariana, relata a importância: “Isso me facilitou bastante. Eu não me confundo ou esqueço mais dos medicamentos. Está tudo separado certinho. É só tomar”.

O consultório da Farmácia Clínica, o número 28 na ala de ambulatórios do HC, é a garantia dessa proximidade. Ao relatar, em 2005, que gostaria de implantar o serviço no hospital para o médico e diretor de Serviços de Clínica Geral, o professor Nilton de Arruda Martins, dra. Solange recebeu a resposta que queria. O serviço seria excelente e de extrema importância, mas deveria estar alocado junto aos consultórios e não no departamento de Farmácia.

“Nós trabalhamos na resposta do paciente e, por isso, precisamos dessa proximidade. Acredito que esse é o nosso diferencial, não nos preocupamos com logística, compra, dispensação. Tudo é muito importante, mas o nosso trabalho é aqui, junto com o médico e os outros profissionais, lidando diretamente na resposta do paciente”, afirma dra. Brícola.

Orientação no SUS

Na rede pública, muitas vezes, apenas a informação de como é possível obter o medicamento fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é suficiente para influenciar de forma positiva no cuidado do paciente. Essa realidade é vivida diariamente pela dra. Renata Mengel, gerente de organização e acesso da Divisão de Assistência Farmacêutica da Prefeitura de São Bernardo do Campo (SP).

“Nós, farmacêuticos, ao conhecermos os protocolos clínicos e as formas de acesso, temos condições de orientar os pacientes sobre como obter o tratamento que necessitam”, explica. Ela ressalta que muitos pacientes apresentam prescrições de medicamentos que não são fornecidos pelo SUS, e, nesse caso, é preciso avaliar quais as alternativas terapêuticas, assegurando que eles não fiquem sem tratamento adequado.

Evitar que o paciente fique sem o tratamento necessário é uma das principais atribuições da Divisão de Assistência Farmacêutica. No entanto, o sistema de compras de medicamentos no setor público é bastante burocrático e ainda esbarra em problemas como atraso na entrega por parte de fornecedores. É aí que dra. Renata Mengel e equipe entram em ação.

“Para evitar prejuízo à saúde, a cada semana, levantamos todos os medicamentos que estão com estoque crítico nas unidades de saúde e, nos casos necessários, buscamos junto a outros municípios e/ou hospitais, possibilidade de troca de medicamentos por itens que possuímos em estoque. Com isso, apesar do estoque de um determinado medicamento encontrar-se crítico, conseguimos garantir que os pacientes não tenham seu tratamento prejudicado, o que impacta diretamente na sua qualidade de vida”.

Chefe no Einstein

Dr. Fábio (Foto Luiz Prado / Agência Luz)Dr. Fábio Ferracini, coordenador farmacêutico do Albert EinsteinO trabalho do dr. Fábio Ferracini promoveu grande transformação na farmácia clínica do Hospital Albert Einstein. Há 13 anos, quando assumiu a responsabilidade de estruturar a assistência farmacêutica na instituição, sua equipe tinha apenas um profissional. Esse número saltou para 52, que garantem hoje um trabalho de referência e que só foi possível por meio de planejamento e a busca por informações e inovações técnicas.

Progressivamente, os resultados foram aparecendo e, para o dr. Fábio, isso foi possível porque o farmacêutico foi valorizado e passou a fazer parte da equipe interdisciplinar. “Graças a esse reconhecimento, pudemos interferir positivamente nos procedimentos clínicos, garantindo melhor resultado no tratamento e evitando riscos de erros de medicação.”

Apesar do avanço conquistado, o dr. Fábio considera que a atividade clínica no hospital precisa ser constantemente aperfeiçoada, e, para implantar as inovações necessárias, planeja, em breve, fazer um mestrado. Outro desafio é implantar a atividade de um farmacêutico exclusivo para educação ao paciente e outro especialista em antimicrobianos.

Uma passagem marcante na carreira do dr. Fabio foi a atuação como voluntário numa equipe de missão humanitária para auxiliar as vítimas do terremoto que devastou o Haiti, em 2010. Na sua opinião, a experiência de ajudar aqueles que passam por dor e sofrimento trouxe conhecimentos que serão utilizados por toda a vida. “No Haiti, aprendi a dividir”, diz.

Da dor ao conhecimento

capa trezza-foto-arq-pessoalDr. José Trezza se interessou pela acupuntura após os resultados positivos na filha Uma intoxicação por gás pela filha enquanto tomava banho mudou a vida do dr. José Trezza Netto, coordenador da Comissão Assessora de Acupuntura do CRF-SP. Ao receber a notícia de que Bárbara, na época com 13 anos, após dias em coma, teve sérias lesões neurológicas, e, possivelmente, ficaria em estado vegetativo para sempre, dr. Trezza foi procurado pelo então aluno, André Velardo, que já trabalhava há dez anos como acupunturista.

“Me vi numa situação difícil. Como falaria de acupuntura, uma área que nem era regulamentada, para um professor que era cético, um pesquisador?”, diz dr. André. Juntos, decidiram apostar na acupuntura e as melhoras vieram já no primeiro dia. “As dores nas costas diminuíram, além da evolução na parte motora e emocional, já que ela estava depressiva e a acupuntura foi fundamental para acabar com a ansiedade e dar tranquilidade ao sono”, conta.

Passados 12 anos, Bárbara surpreende os neurologistas a cada tomografia, e, pelo grau da lesão, quem era para estar imóvel em uma cama, anda de cadeiras de rodas, consegue movimentar o corpo, fica em pé com ajuda, enxerga alguns vultos, se comunica e está prestes a lançar um livro de poesias.

Dr. André destaca que as sessões de acupuntura, aliadas a outros tratamentos, garantiram a qualidade de vida da paciente, permitindo que o quadro não se agravasse. Dr. Trezza, por sua vez, viu de perto o quanto um farmacêutico poderia ser fundamental para não agravar o quadro e decidiu especializar-se em acupuntura.

Por Carlos Nascimento, Marivaldo Carvalho, Monica Neri, Renata Gonçalez, Thais Noronha