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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 115 - JAN-FEV-MAR / 2014

 

academicas geraldo alecioProfissão farmacêutica: unir, agir e mudar para melhorar

 

Por prof. dr. Geraldo Alécio de Oliveira

As mudanças econômicas, tecnológicas e sociais das últimas três décadas alteraram profundamente as formas de relacionamento humano. Hoje, certificados e diplomas não são mais suficientes para o ingresso e permanência no mercado de trabalho. Um diploma não garante mais emprego. Para fazer face às novas organizações do trabalho, que vêm substituir as funções repetitivas, mecânicas e sem iniciativa, é necessário um profissional que, além de saber fazer, seja capaz de pensar soluções criativas, transmitir com eficiência suas ideias, de modo escrito e oralmente; seja capaz de interpretar dados e tomar decisões fundamentadas; saiba trabalhar em grupo e tenha iniciativa, entre outras características desejáveis. Ou seja, além das habilidades e saberes diretamente relacionados ao exercício profissional, é necessário o desenvolvimento de aspectos mais comportamentais.

Em 2006, a Organização Mundial da Saúde (OMS) descreveu sete competências essenciais para o farmacêutico, que são: prestação de serviços em uma equipe de saúde, capacidade de tomar decisões, comunicação, liderança, gestão, atualização permanente e educação. Se analisarmos profundamente estas competências, veremos que, em sua maioria, estão relacionadas com ciências humanas e sociais. Mas como inserir estas transformações num país cuja formação em Farmácia é profundamente tecnicista e tradicional? Esta resistência às mudanças traz grande prejuízo para a melhoria e a ascensão social da profissão. Para realizar estas transformações, são necessárias profundas modificações na educação superior brasileira, e não somente na educação farmacêutica. São necessários esforços integrados de várias entidades e órgãos profissionais para sensibilizar a comunidade acadêmica e construir um ambiente propício para tais transformações. Precisamos substituir o modelo tradicional de ensino baseado no conhecer/reproduzir, para um modelo inovador orientado pelo criar/transformar/melhorar. Sair do modelo conteudista fundamentado na memorização para um modelo orientado por competências, integrado, baseado em “raciocínio de ordem superior”.

Ao longo dos tempos, as profissões foram se adaptando e encontrando formas de se diferenciarem no mercado, por meio do conhecimento ou por meio de uma imagem diferenciada. Este é um processo natural, pois todo indivíduo, mesmo que inconscientemente, gosta de se valorizar e se destacar em seu ambiente pessoal ou profissional. Isto acontece porque as pessoas que se destacam acabam conquistando maior prestígio. Os profissionais de nível superior têm como moeda de troca o conhecimento. Assim, as profissões se destacam pela capacidade de trocar conhecimentos e habilidades por remuneração compatível.

Quanto mais são ofertados conhecimentos numa atividade profissional, maior é a remuneração por aquele serviço. Logo, se faz necessário abrir um espaço para que os farmacêuticos, independentemente da área de atuação, possam mostrar seus conhecimentos, conquistar a confiança e a credibilidade, para que a sociedade queira pagar por seus serviços. 

Na área médica, é fácil exemplificar este ponto, pois o médico tem um tempo natural durante a consulta para mostrar seus conhecimentos e conquistar a confiança do seu paciente. O advogado, durante uma reunião para discutir um processo, também tem um espaço de interação para mostrar seus conhecimentos e habilidades jurídicas. O engenheiro, enquanto apresenta seu projeto ao futuro cliente, do mesmo modo, teve um tempo para mostrar seu potencial. Este é um grande desafio da profissão farmacêutica: criar um espaço para interagir com a comunidade e mostrar seu conhecimento”.

Por exemplo, durante a dispensação do medicamento, o farmacêutico tem de criar um momento de interação com o cliente para conquistar a sua confiança. Do mesmo modo, quando está na farmácia hospitalar, tem de interagir com a equipe de saúde e mostrar que é capaz de contribuir com novos conhecimentos. Se a função da universidade é transformar a sociedade, neste aspecto, não estamos conseguindo alcançar nosso objetivo, porque não estamos preparando nossos alunos para promover esta mudança. O farmacêutico tem de construir novos cenários de atuação e transformar seu ambiente de trabalho. Para isso, são necessárias atitudes criativas nas atividades diárias para criar estes espaços de troca. Faz-se necessária uma ação proativa para construir mudanças no modelo de atuação profissional.

O reconhecimento e a valorização de um profissional vêm de sua imagem que é percebida pela sociedade. Neste aspecto, pessoas que adotam uma vestimenta diferenciada acabam adquirindo maior admiração social e, com isso, refletindo numa percepção de maior projeção e prestígio profissional. Ainda, a todo momento, o profissional está sendo avaliado em diversos parâmetros, sendo que um deles é a comunicação oral e escrita. Alguém que se expressa em português correto, de maneira formal, com clareza e objetividade, adquire maior confiança. No dia a dia, não é possível para o “cliente” reconhecer e avaliar a qualificação de um profissional somente por meio de parâmetros técnicos. A imagem, a confiança e a credibilidade são construídas também de maneira subjetiva por percepções, detalhes e aspectos relacionados à comunicação, atitudes, postura e valores. Assim, é função da educação superior orientar o estudante na construção de uma imagem positiva.

Após 15 anos diretamente envolvido com a educação farmacêutica, consultar ampla literatura sobre o assunto e visitar diversas universidades ao redor do mundo, percebo que a profissão de Farmácia passa por profundas reflexões e transformações, em que as competências técnicas não são mais suficientes para o sucesso profissional. São necessárias competências básicas como comunicação oral e escrita; capacidade de adaptação às mudanças; trabalho em equipe; capacidade de aplicar conhecimentos a situações práticas; aprendizagem permanente e autônoma; liderança; espírito empreendedor e visão ampla e globalizada.