Revista do Farmacêutico 112 - Entrevista

rf106_cabecalhoPUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 112 - JUL-AGO / 2013

Revista 112 setinha Entrevista - Dra. Djenane Ramalho de Oliveira


A Atenção Farmacêutica é viável

Ministrante do XVII Congresso Paulista de Farmacêuticos mostra o que falta ao farmacêutico para prestar esse serviço clínico reconhecido mundialmente

Foto: Arquivo Pessoal

A professora de Atenção Farmacêutica e coordenadora do Centro de Estudos em Atenção Farmacêutica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dra. Djenane Ramalho de Oliveira, é uma entusiasta quando o assunto é a prestação de serviços à população. Como ela mesma diz, é preciso muita paixão para lidar com o ser humano. Prestes a embarcar para os Estados Unidos, onde é professora adjunta no Departamento de Atencão Farmacêutica e serviços de Saúde da Universidade de Minnesota, desde 2008, ressaltou em entrevista à Revista do Farmacêutico que a formação em Farmácia no Brasil é técnica e não prioriza o atendimento a pessoas, nem a tomada de decisões.

Thais Noronha

Revista do Farmacêutico  -  Quais as principais vantagens da atenção farmacêutica para a saúde da população?  

Dra. Djenane Ramalho de Oliveira  – Para a população, a atenção farmacêutica é uma prática profissional que preenche uma lacuna na sociedade do ponto de vista do uso de medicamentos. A ideia é reinventar o farmacêutico para que ele realmente assuma o resultado da farmacoterapia. Hoje, os medicamentos podem ser comprados ou adquiridos por programas do governo, mas não existe um profissional que acompanhe o uso dele. O médico pode prescrever o melhor medicamento, mas com o medicamento na mão, é o paciente que toma decisões diárias de como utilizar e se irá utilizar. Ele acaba influenciado pela família, por experiências anteriores. Por isso, é importante um profissional que o acompanhe, que mostre a segurança do tratamento.

RF - E para a farmácia? A Atenção Farmacêutica pode ser vista como um negócio? 

DRO - Essa prática é revertida em serviço clínico que pode ser aplicado em diversos locais, é um serviço de ponta, extremamente diferenciado. Atenção farmacêutica não é apenas dar atenção ao paciente, há um embasamento, um arcabouço teórico e ético. O farmacêutico tem que estar ciente de que as ações dele impactarão na vida de outro ser humano. Ou você cuida do paciente ou não cuida, não existe cuidar mais ou menos. Em termos de benefício, o farmacêutico será reconhecido. Nos EUA já existe o reembolso pela prestação de atenção farmacêutica. Fui gerente de um estabelecimento e vendíamos a atenção como um serviço. Em termos de negócio, o potencial ainda é limitado, mas se realizada da forma correta, pode mudar totalmente a maneira de como o farmacêutico é visto na sociedade. 

RF - Por que a atenção farmacêutica não é efetivamente implantada nas farmácias e drogarias brasileiras?

DRO – Uma das dificuldades são os cursos que não são voltados para formar um profissional de saúde. As faculdades de Farmácia em geral, no Brasil, formam farmacêuticos muito técnicos, ele não é formado para se relacionar com outro ser humano, para lidar com o sofrimento, para tomar decisões, ter consciência ética do impacto de suas ações. Outro entrave é a cultura da Farmácia enquanto profissão, não existe a cultura do cuidado, por mais que a atenção tenha sido proposta em 1990, o cuidar ainda é um conceito inédito no mundo da Farmácia. 

RF - O profissional sai da graduação preparado para prestar a atenção ou é preciso aprimorar-se?

DRO - Há escolas que estão preparando muito bem os estudantes em algumas partes do Brasil, mas a grande maioria, não. Muitos profissionais pensam “se as instituições não estão preparando adequadamente, vou fazer um curso de especialização”, no entanto, a maioria desses cursos também não prepara adequadamente. Grande parte é muito teórica, o aluno não tem oportunidade de exercitar habilidades clínicas, os cursos apenas reproduzem o que acontece na faculdade de Farmácia. Precisamos de um título, de um treinamento e para isso não são necessárias 360 horas com uma monografia no final. Pode ser algo rápido, mas focado. Preparar para a atenção farmacêutica não é complicado, mas é preciso saber o que se está fazendo. 

RF - Quais os diferenciais (conhecimentos e habilidades) que o farmacêutico precisa ter para prestar atenção farmacêutica?

DRO – O farmacêutico tem que querer trabalhar com pessoas e esse é um desafio. A Farmácia historicamente atraiu muitas pessoas tecnicistas, que querem trabalhar em laboratório, atrás do balcão e a atenção farmacêutica é o contrario, as pessoas têm que querer colocar a “cara” lá fora. Tem que ter humildade, paixão pelo que faz e consciência de que é minha responsabilidade ajudar as pessoas a fazer o melhor uso de medicamentos. Se você ouvir de um farmacêutico que ele detesta trabalhar com gente, já sabe que não tem o perfil para atenção farmacêutica. Habilidades técnicas e de comunicação são possíveis de serem ensinadas, mas a paixão e o desejo de ser um profissional de saúde real têm que estar na pessoa. 

RF - Quem for assistir ao seu curso “Atenção farmacêutica: Gestão integral da terapia medicamentosa”, no XVII Congresso Paulista de Farmacêuticos, pode esperar o quê? 

DRO - No curso, o Manuel Machuca (farmacêutico espanhol) e eu vamos falar o que significa transformar essa prática que tem uma filosofia, um processo de trabalho, em serviço clínico que seja aplicável no mundo real. É um serviço que posso mostrar a um proprietário de farmácia e dizer “esse é o serviço que vou oferecer”, “é isso que você pode esperar”, “essa é a documentação que vou utilizar”, “esse é o impacto que vamos causar economicamente, clinicamente e humanisticamente”. Apesar da carga horária pequena, é uma introdução ao assunto. A atenção farmacêutica pode ser viável e reconhecida.

Dica do congresso:

O curso “Atenção farmacêutica: Gestão integral da terapia medicamentosa” será ministrado durante o XVII Congresso Paulista de Farmacêuticos, de 5 a 8 de outubro no Transamerica Expo center. Saiba mais em www.crfsp.org.br/congresso. Participe!

 

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