PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 130 - MAI - JUN - JUL/2017

 

Palavra do ministrante

A problemática do descarte inadequado e a Logística Reversa de medicamentos no Brasil

Dr. Ronaldo Campanher

 

Sustentabilidade é definida como “o princípio que assegura que as ações de hoje não irão limitar a gama de opções econômicas, sociais e ambientais disponíveis para a futura geração”1.

O descarte inadequado de medicamentos no meio ambiente e, consequentemente, a contaminação do solo e da água podem gerar graves problemas ambientais e de saúde para seres vivos. Exemplificando, cita-se o surgimento de resistência bacteriana, no caso de resíduos de antibióticos; além da feminização de peixes machos após contato com substâncias hormonais provenientes de anticoncepcionais ou medicamentos utilizados para reposição hormonal. Essas e outras classes terapêuticas podem afetar o equilíbrio do meio ambiente, interferindo em ciclos biogeoquímicos e na cadeia alimentar dos seres vivos2,3.

A maneira como são descartados medicamentos vencidos e/ou não utilizados pela população ocorre, em termos gerais, de forma ambientalmente incorreta. Pesquisas indicam que a maioria dos usuários, independentemente do grau de instrução, descarta medicamentos diretamente no lixo comum ou na rede de esgoto, uma vez que, de modo geral, atualmente no Brasil não existem nem orientação, nem opções para o descarte ambientalmente adequado por parte do usuário4,5.A maneira como são descartados medicamentos vencidos e/ ou não utilizados pela população ocorre, em termos gerais, de forma ambientalmente incorreta

Os desafios para a implantação da Logística Reversa de medicamentos no Brasil são grandes, principalmente considerando a extensão territorial e as amplas distorções socioeconômicas e culturais do país. Porém, algumas diretrizes podem ser apontadas: corresponsabilidade na cadeia de fabricação e distribuição do medicamento; minimização de resíduos como estratégia; realização de programa-piloto; investigação e classificação dos resíduos gerados; intersetorialidade entre diferentes esferas do governo; campanhas de sensibilização e conscientização da comunidade6,7,8.

Além disso, as ações para a redução da geração de resíduos medicamentosos passam pelo uso racional de medicamentos, com estabelecimentos farmacêuticos funcionando, verdadeiramente, como estabelecimentos de saúde9.

O êxito da Logística Reversa ou de qualquer outro programa de descarte de medicamentos no Brasil depende de uma série de fatores, dos quais destacam-se: fatores políticos, socioculturais, disposição dos atores envolvidos na cadeia produtiva e educação ambiental – em que o farmacêutico exerce papel fundamental em termos de orientação ao usuário. Ações que unem todos esses fatores devem ser estruturadas, de forma a garantir que solo, água e, consequentemente, todos os seres vivos, não sofram com a contaminação química proveniente do descarte ambientalmente inadequado de medicamentos.

 

Referências Bibliográficas:

  1. Elkington J. Cannibals with forks: the triple botton line of 21st century business. Oxford: Capstone; 2000.
  2. Borrely SI, CaminadaSML, Ponezi NA, Santos DR, Silva VHO. Contaminação das Águas por Resíduos de Medicamentos: Ênfase ao Cloridrato de Fluoxetina. O Mundo da Saúde 2012; 36(4):556-563.
  3. Eickhoff P, Heineck I, Seixas LJ. Gerenciamento e destinação final de medicamentos: uma discussão sobre o problema. Rev Bras de Farmácia 2009; 90(1):64-68.
  4. Pinto GMF, Silva KR, Pereira RFAB, Sampaio SI. Estudo do descarte residencial de medicamentos vencidos na região de Paulínia (SP), Brasil. Rev Engen Sanit Ambient 2014; 19(3):219-224.
  5. Silva NR, Abjaude SAR, Rascado RR. Atitudes de usuários de medicamentos do Sistema Único de Saúde, estudantes de farmácia e farmacêuticos frente ao armazenamento e descarte de medicamentos. Ciência Farm Básica Aplicada 2014;35(2):317-323.
  6. Falqueto E, Kligerman DC. Diretrizes para um Programa de Recolhimento de Medicamentos Vencidos no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva 2013; 18(3):883-892.
  7. Bellan N, Pinto TJA, Kaneko TM, Moretto LD, Santos Junior N. Critical analysis of there gulations regarding the disposal of medication waste. Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences 2012; 48(3):507-513.
  8. Lenhardt EH, Solis LJB, Cintra EVCS, Botelho EHL. O descarte de medicamentos no bairro Grande Terceiro, Cuiabá-MT. Cient., Ciênc. biol. Saúde UNOPAR 2014; 16(1):5-8.
  9. Naves JOS, Castro LLC, Carvalho CMS, Hamann EM. Automedicação: uma abordagem qualitativa de suas motivações. Ciência & Saúde Coletiva 2010; 15(Supl.1):1751-1762.

 

DR. RONALDO CAMPANHER é farmacêutico e especialista em educação, ambiente e sociedade. Tem experiência na área de Farmácia, com ênfase em hematologia clínica, atuando principalmente nos seguintes temas: leucemia, blastos, anemia ferropriva; talassemia, farmacologia, acesso a medicamentos e políticas públicas.

Dr. Ronaldo Campanher irá participar do simpósio Logística Reversa de Medicamentos