Revista do Farmacêutico 114 - Pesquisa Clínica

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PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 114 - NOV-DEZ / 2013

Revista 114 setinha Pesquisa Clínica

 

Avanço da ciência x pesquisa em animais

Foto: Tetra Images/LatinstockÉ possível desenvolver novos fármacos sem experimentação animal?

As discussões acerca da utilização de animais em pesquisa clínica ganhou destaque no país, principalmente nos meses de outubro e novembro deste ano, após um instituto de pesquisa localizado no Estado de São Paulo ter sido invadido por ativistas que levaram 178 de seus cães da raça Beagle.

Os manifestantes defendem que o uso de animais em pesquisas podem ser substituídos por uma cultura de células in vitro, programas de computadores para cálculos de interação medicamentosa e outras opções alternativas a esse método. Eles são, ainda, favoráveis à mudança da lei brasileira que regulamenta e permite que ratos, cachorros, primatas e outros bichos sejam utilizados nos laboratórios.

Em contrapartida, a comunidade científica afirma não existir na atualidade uma tecnologia ou método científico que imite a complexidade da ação do medicamento em seres humanos mais eficientemente que a utilização de animais. 

O vice-coordenador da Comissão Assessora de Pesquisa Clínica do CRF-SP e pesquisador na Universidade de São Paulo, dr. Wallace Luis Moreira, aponta que é indispensável o uso de animais na pesquisa em medicamentos. 

“É intransponível a utilização de animais para avaliar a biotransformação. Desconhece-se hoje estudo in vitro que mostre como o medicamento vai reagir no organismo. Pode até mimetizar um órgão, mas não é possível conseguir, com a tecnologia e a ciência de hoje, mimetizar a biotransformação de um fármaco.”

 Para ele, a pesquisa científica com animais evita que os seres humanos utilizem moléculas que nunca tiveram contato com outro organismo vivo e, por isso, garante mais segurança ao ser humano.

“Não podemos esquecer que fizemos um juramento de não lesar o ser humano.”

Ética e legislação

Apesar dos benefícios alcançados com a utilização de animais na pesquisa clínica, é extremamente importante que os princípios éticos sejam sempre avaliados em relação ao assunto. 

De acordo com dr. Wallace, no Brasil, todo experimento em animais precisa passar por um crivo ético antes de ser aprovado. 

“Trata-se de uma comissão multidisciplinar,  denominada Comissão Ética no Uso de Animal (CEUA), composta por cientistas, profissionais da saúde, sociedade civil, etc. Se houver qualquer implicação ética, não se realiza o estudo.” 

Além dessa comissão, a legislação brasileira, principalmente após a aprovação da Lei Arouca (Lei 11.794, de 8 de outubro de 2008), que estabelece procedimentos para o uso científico de animais, também zela pelo bem-estar dos animais em sua integridade, dignidade e vulnerabilidade, sem deixar de lado o desenvolvimento da pesquisa e da ciência.

“Os animais são tratados sem nenhuma tortura ou maltrato”, ressalta o pesquisador.

Foto: Purestock/Latinstock

Utilização humanitária 

Entre as principais normas relativas à utilização humanitária de animais com finalidade de ensino e pesquisa científica, criadas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), estão  o uso obrigatório de sedação, analgesia ou anestesia adequadas. O uso de bloqueadores neuromusculares ou de relaxantes musculares no lugar de substâncias sedativas, analgésicas ou anestésicas é proibido. A lei estabelece também que os animais que já foram usados em experimentos que alcançaram seus objetivos não podem ser reutilizados.

“Não existe justificativa para sacrificar um animal se a pesquisa não é totalmente inédita e vai garantir avanço na saúde”, enfatiza.

Mônica Neri

 

 

 

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