Revista 108 - Análises Clínicas e Toxicológicas

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PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 108 - AGO - SET - OUT / 2012

Revista 108 setinha Análises Clínicas e Toxicológicas


Medicamento e dose certos para o paciente certo

Inovadora e bastante promissora, a farmacogenômica pode melhorar eficácia do tratamento medicamentoso e minimizarou previnir efeitos adversos

DNA (Foto: Sunagatov Dmitry / Panthermedia)

Há um consenso no meio farmacêutico de quenão existe um único medicamento que funcione para todas as pessoas. Está mais do quecomprovado que ocorrem variações individuais naresposta aos fármacos, podendo dois pacientes com a mesma indicação farmacoterapêutica, que fazem usoda mesma substância ativa, obterem resultados e benefícios diferentes. É neste contexto que se baseia a farmacogenômica (também denominada farmacogenética), um ramo da biologia molecular que estuda a relação entre as variações genéticas de uma pessoa e a resposta individual a um medicamento.

Em linhas gerais, a ideia é justamente aplicar técnicas que reduzam os efeitos colaterais e aumentem a eficácia dos medicamentos por meio de um tratamento individualizado, uma vez que a farmacogenômica busca a medicina personalizada, de acordo com o estudo genético do paciente. A variabilidade da resposta do organismo ao medicamento afeta os efeitos terapêuticos deste, assim como as reações adversas (indesejadas), de forma que a mesma dose de um mesmofármaco pode ser benéfica para um paciente, mas ineficaz (ou o que é pior, tóxica) para outro, embora os dois tenham recebido o mesmo diagnóstico clínico.

Hospitalizações por reações adversas

Nos EUA, mais de 2 milhões de internações resultam deefeitos adversos de medicamentos  (Foto: Torsten Tracht / Panthermedia)
Nos EUA, mais de 2 milhões de internações resultam deefeitos adversos de medicamentos 
(Foto: Torsten Tracht / Panthermedia)

Só para se ter uma ideia, segundo dados publicados no livro Farmacogenética: princípios, aplicações e perspectivas (METZGER, I. F.; SOUZA-COSTA, D. C.;TANUS-SANTOS, J. E), somente nos Estados Unidos, mais de dois milhões de hospitalizações (3% a 6% das admissões hospitalares) são resultado de efeitos adversos a medicamentos. Trinta por cento desses internados têm uma segunda reação durante sua permanência no hospital. Outros dois milhões de pacientes ficam gravemente doentes.

Neste contexto de prevenção e de medicina personalizada, a aplicabilidade é indicada pela U.S. FDA (agência regulamentadora dos EUA) para mais de 100 medicamentos usados com certa frequência, tais como :varfarina, clopidogrel, codeína, imatinibe, dasatinibe, carbamazepina, fenitoína, etc. No cenário brasileiro, vários testes laboratoriais já estão disponíveis aos profissionais de saúde, mas a maior demanda será observada com o maior conhecimento do corpo clínico.

O vice-coordenador da Comissão Assessora de Análises Clínicas e Toxicológicas do CRF-SP, dr. Paulo Caleb Júnior de Lima Santos, explica que afarmacogenômica identifica o efeito de variações genéticas (poliformismos – alterações genéticas identificadas com certa frequência) que podem alterar a farmacodinâmica ou a farmacocinética. E, consequentemente, alterar a eficácia e a toxicidade de fármacos sobre os indivíduos.

Dr. Paulo Caleb afirma ainda que a farmacogenômica pode contribuir para a melhor adesão e sucesso do tratamento medicamentoso. “O objetivo da medicina personalizada com a farmacogenética consiste na combinação da informação genética com outros fatores clínicos individuais para adequar as estratégias preventivas e terapêuticas. Deste modo, podem, e muito, melhorar a eficácia e também prevenir efeitos adversos”. Entretanto, sempre será necessário o questionamento farmacoeconômico, isto é, avaliar o benefício-custo. Alguns estudos já comprovam que essa abordagem, além de beneficiar o paciente, traz redução de custos advindos de internações e de eventos adversos graves. 

Cada vez mais, as agências regulamentadoras observam os avanços tecnológicos e o entendimento da relação farmacogenômica. “Nos últimos anos, estudos geraram evidênciasda estreita relação genótipo-fenótipo que implicará a maior utilização de ensaios farmacogenéticos, a fim de selecionar a terapêutica individualizada e a sua dose estimada. Consequentemente, isso irá acarretar melhora ao paciente e ótima relação benefício-custo ao sistema de saúde, relata dr. Caleb”.

Renata Gonçalez

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